O telefone, ainda fora do gancho, era a prova. Eu não queria, mas foram eles que pediram. Só há mesmo uma forma de resolver as coisas nessa cidade: agindo. Rangia os dentes e dava socos na parede, estava à beira de um ataque de nervos. Talvez Kátia estivesse certa, tanto stress vai acabar me matando. Mas antes, mato um deles. Abro o guarda-roupa e visto escuro o que encontrar. Tenho um encontro. Preciso estar vestido, não importa. Não me levariam a sério se saísse de pijama. Será que Kátia vai estar lá? Será que devo poupá-la? Ela estava apenas fazendo o trabalho dela. Mas desligou na minha cara. Vagabunda. Levo comigo a única coisa eu encontro no caminho: O taco de baseball do meu irmão. O elevador do prédio esta em manutenção, outra vez. Isso me deixa ainda mais puta da vida… Com o taco, dou 3 pancadas no chão quebrando o piso do hall, desço 5 andares de escada, mas o extintor de incêndio do quarto andar desce na frente, rolando os degraus, parando nas curvas, recomeçando depois de outra tacada.Uma barulheira metálica.Hahaha,delícia! Aquele telefonema me deixou ligada, irritada. Meu ódio, minha inspiração.
Três ruas pra baixo de onde eu moro, entro no prédio da companhia. O prédio está lotado de gente. Todos parecem nervosos, uns conversam muito alto enquanto um bebe chora no colo da mãe. Toda essa agitação me deixa zonza, mas desvio da gentarada chegando a frente da sala:
- pois não? Você pegou senha?- Sou abordado por moça sentada atrás do balcão da recepção. Parece simpática
- você é a Kátia?
- Kátia?Não, é… Acho que você está no lugar errado. –Simpática o caralho! Enfureço-me ainda mais.
- Não se faça de idiota! Cadê o responsável por essa merda toda? - Enfim, silencio na sala. Todos parecem nervosos, ainda. A recepcionista aponta para uma porta à esquerda:
- no fi-final do corredor.- Responde, agora escondida em baixo do balcão.Essa informação foi fácil de conseguir, provavelmente levantar o taco com as duas mãos ameaçando estourar os miolos dela ajudou. Chego enfim a sala no fim do corredor. A porta fechada cai de uma só vez para o lado de dentro em baixo do meu pé esquerdo. Esse tipo de coisa me deixa cansada. Um sujeito gordinho e com pouco cabelo afundado em uma cadeira de couro braço me fita de cima a baixo. Ele parece tranqüilo:
- Você deve ser Lake Annabelle. Sabia que nos encontraríamos. Recebi seus e-mails. Você é bem forte para uma moça.
-Falei com tal de Kátia no telefone. A filha da puta desligou na minha cara! – Ao contrario dele, estou ofegante e com sangue nos olhos.
- Kátia…? Ahn… Tem certeza que a ligação não caiu? – Caiu a ligação. Esse babaca quer me passar a perna. Aposto como ele diz isso pra todas.
- Olha aqui, ô gordinho ridículo, ou você manda alguém ainda hoje ou esse taco de baseball vai atravessar os seus ouvidos, entendeu?
- Mas querida, tende entender… - Não gosto que me chamem de querida. Uma tacada e o porta retrato com a foto de uma menina loira tomando sorvete, cai ao chão e o vidro se quebra. Ele fecha os olhos, virando a cara, respira fundo e continua – Mas não temos ninguém disponível hoje. Só para o dia 15 de julho. – Outra tacada, a impressora cai e se desfaz em três.
- A próxima coisa que vou quebrar vai ser sua cabeça, palhaço! Estou esperando há um mês!! É melhor você resolver agora. Não estou brincando, eu posso até ir presa por isso, mas você vai daqui pro inferno! – Ameaço – o com o taco, mas ele não reage. Continua calmo:
- Façamos o seguinte, Anabelle. Por favor, sente-se. Mandaremos o técnico amanhã de manhã…
- hoje!
- Amanhã de manhã. E mudamos seu plano do… Qual você tem hoje? Compacto? Do compacto para o total plus. Que tal? Sem aumento nas parcelas por um ano. – Odeio esse tipo de gente que tenta me comprar com TV a cabo. Nunca me venderia por tão pouco.
- EU DISSE QUE QUERO HOJEE!!!!!!!!!!
E então, para quem pensou que eu estava blefando, o taco de baseball atravessou sim seus ouvidos. Voltei pra casa nesse dia, me sentindo melhor. Nunca ninguém da Companhia me procurou. Apenas cortaram meu cabo, mas tudo bem. Cortaram também meus problemas.